No filme O Diabo Veste Prada (2006), há uma cena em que a protagonista Andy (Anne Hathaway) está se servindo de seu almoço no refeitório, quando Nigel (Stanley Tucci) – diretor de arte de uma revista de moda – julga suas escolhas alimentares. Ela pergunta se as garotas da revista não comem nada, e ele responde com uma frase que se tornou emblemática: “Não desde que o tamanho 36 virou o novo 38”.
Assim, o longa mostrou como a indústria da moda alimentava a obsessão pela magreza e os distúrbios alimentares no início dos anos 2000. E é simbólico que a sequência da história chegue 20 anos depois, em meio à volta desses problemas com faces ainda mais diabólicas.
O Diabo Veste Prada retrata o drama de Andy trabalhando para uma chefe carrasca, a poderosa Miranda Priestly (Meryl Streep), personagem inspirada em uma figura da vida real: a exeditora-chefe da Vogue americana, Anna Wintour. Para se dar bem na carreira, a protagonista precisa aderir aos rígidos padrões de beleza do mundo da moda, inclusive perdendo peso.
Quando o filme original saiu, havia quem fizesse de tudo para entrar numa calça de cintura baixa. As mulheres ainda sofriam as consequências da tendência conhecida como “heroin chic” – moda surgida nos anos 1990 que estimulava a magreza extrema e a palidez, visual
O filme ‘O Diabo Veste Prada 2’ tem padrões de beleza ainda mais cruéis para retratar associado ao uso de drogas.
O tempo passou e a magreza não saiu de moda. Mas, nos anos 2010, ganhou força o movimento body positive, com celebridades, influenciadores e modelos falando sobre relações mais saudáveis com o corpo. Esse passou a ser o discurso lucrativo da vez, e as marcas a ele aderiram, ampliando as opções de tamanhos nas lojas e incluindo novos tipos de corpos nas passarelas.
Mas a moda funciona em ciclos de 20 anos. O visual do início do século está de volta na tendência Y2K, e basta ver as fotos de qualquer tapete vermelho para perceber que o corpo muito magro voltou a ser regra entre celebridades. Uma obsessão que, agora, não está só nas revistas, mas no feed das redes sociais, e com a adição de outro fator: o uso estético de canetas emagrecedoras. Ainda mais do que em 2006, paira no ar a péssima sensação de que só há um tipo de corpo possível – e de que qualquer coisa que fuja disso precisa ser corrigida.
A própria Anne Hathaway, assombrada com a magreza das modelos durante a pesquisa para O Diabo Veste Prada 2, pediu à produção que incluísse nas cenas mulheres com corpos mais naturais. A forma como a sequência se relacionará com os padrões estéticos de hoje é um dos fatores fundamentais que farão dela digna – ou não – do longa original.
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